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Banco público e dívida comprada: o liberal que gosta do Estado
Flávio propõe que o governo compre dívidas dos bancos, quer a Caixa como 'Itaú da favela' e manda a conta do 6x1 ao Tesouro. É liberalismo de palanque.
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No debate da Band, em 18 de outubro, Flávio Bolsonaro fez uma proposta que nenhum liberal de carteirinha assinaria. Disse que o governo compraria dos bancos as dívidas de pessoas e empresas, segundo o Metrópoles. Na mesma noite, prometeu que os juros cairiam “de uma forma muito rápida”.
Sou liberal. Acredito em Estado menor, contas em ordem e mercado funcionando. Por isso leio o programa de Flávio com lupa. E o que encontro é um candidato que fala a língua do mercado, mas propõe a ferramenta preferida do estatismo: dinheiro público resolvendo problemas privados.
O Estado como solução
Comecemos pela compra de dívidas. Quando o governo assume o que uma família deve a um banco, alguém paga essa conta. Esse alguém é o contribuinte. O banco recebe, o devedor respira e a fatura vai para o Tesouro.
E o Tesouro já carrega uma dívida bruta de R$ 11,1 trilhões. Foi o próprio Flávio quem citou esse número no debate, e a agência Lupa o classificou como verdadeiro.
O valor equivale a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), a soma de tudo o que o país produz em um ano. Flávio tem razão sobre o tamanho do buraco. A proposta dele é que cava mais fundo.
Depois vêm os bancos estatais. Em vez de discutir o tamanho da Caixa Econômica Federal, a campanha quer transformá-la num “Itaú da favela”, com crédito para as comunidades, segundo o BPMoney. E Adolfo Sachsida, nome forte da equipe, garantiu em 8 de outubro que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa não serão tocados, relatou o InfoMoney.
Há ainda a promessa dos juros. Quem define a Selic, a taxa básica de juros, é o Comitê de Política Monetária (Copom) do Banco Central, e não o presidente da República. A Selic, aliás, já está em queda: chegou a 13,75% depois do quinto corte seguido, em 16 de setembro. Prometer juros despencando por vontade do governo é a velha tentação de usar o Estado para tudo.
Tudo isso poderia ser defendido por um desenvolvimentista. O curioso é ouvir essas ideias de um candidato que promete um “tesouraço” para enxugar a máquina e cortar ao menos dez ministérios.
A conta que sempre sobra para o governo
O padrão se repete em outros temas. No fim da escala 6x1, Flávio anunciou o voto a favor dizendo, segundo a CNN Brasil, em 13 de outubro, que o governo deveria pagar a conta dos empregadores. É a mesma lógica. O benefício é privado; a fatura é pública.
A coordenadora do programa, Daniella Marques, também tem suas fórmulas. Em agosto, propôs levantar de R$ 200 bilhões a R$ 400 bilhões com a securitização da dívida ativa, isto é, a venda a investidores do direito de cobrar impostos atrasados. Falou ainda num fundo imobiliário e na antecipação de royalties do petróleo, segundo o InfoMoney.
São receitas de uma vez só, usadas para tapar buracos permanentes. Vender hoje o que o Estado receberia amanhã melhora a foto do ano, mas piora o filme da década. Nenhum liberal sério confunde isso com ajuste fiscal.
Nem a própria equipe parece acreditar na promessa principal. Marcelo Kayath, cotado para a Fazenda, chamou de inviável um ajuste de R$ 200 bilhões em um ano, segundo o Terra. E o histórico do candidato não ajuda. Em 2023, Flávio votou contra o arcabouço fiscal, a regra que limita o crescimento dos gastos, aprovada no Senado por 57 votos a 17.
O que é verdade dos dois lados
Também é preciso dizer o que é verdade. O mercado reagiu bem à liderança de Flávio no primeiro turno. A inflação esperada está acima da meta, e a dívida pública é alta. Nada disso está em discussão.
A questão é outra. A direita passou anos dizendo que o Estado não é a solução. Flávio chega ao segundo turno propondo que o Estado compre dívidas, que bancos públicos ampliem seu papel e que o Tesouro pague a conta de mudanças trabalhistas.
Liberalismo não é discurso de palanque. É o que se faz com o dinheiro dos outros. No domingo, o eleitor liberal decide se entrega a bandeira a quem só a usa como figurino.
O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que os juros vão cair rápido porque o corte de gastos vai restaurar a confiança na economia. No debate da Band, culpou os gastos do governo pelos juros altos e prometeu liberar mais de R$ 200 bilhões no orçamento, segundo o Metrópoles.
Fontes
- Se eleito, Flávio diz que a taxa de juros vai cair de forma muito rápida — Metrópoles
- Checagem do debate entre Lula e Flávio Bolsonaro na Band — Lupa
- Flávio Bolsonaro, Bolsa Família e a Caixa como “Itaú da favela” — BPMoney
- Campanha de Flávio nega privatizar estatais e promete fortalecer programas sociais — InfoMoney
- Flávio diz que votará por fim da 6x1 e que governo deverá pagar a conta — CNN Brasil
- Cotada para vice, Daniella Marques detalha plano de Flávio com corte de 1,5% do PIB — InfoMoney
- Lula critica tesouraço e questiona onde Flávio fará corte de R$ 250 bilhões — Terra
- Arcabouço fiscal: veja como votou cada senador — Congresso em Foco


