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Mulher Segura: Sul e Centro-Oeste têm mais prisões que população

Em 141 dias, a Mulher Segura somou 57,8 mil prisões; a comparação com o Censo mostra onde a polícia prendeu mais, não onde há mais violência.

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Artigos de opinião expressam a visão de seus autores, identificados pelo nome, não necessariamente a da Revista Nação.

Fachada branca da 1ª Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher, com o brasão da Polícia Civil de São Paulo, sob céu azul.
A 1ª Delegacia de Polícia de Defesa da Mulher de Campinas (SP), em fevereiro de 2017.Foto: Alexandre Carvalho / Governo do Estado de São Paulo / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em 141 dias, a Operação Mulher Segura prendeu 57.790 agressores de mulheres, segundo balanço divulgado pelo SBT News em 19 de outubro. A ação foi lançada em 1º de junho de 2026, depois de uma onda de feminicídios. Ela reúne as polícias de todos os estados e do Distrito Federal, sob coordenação do Ministério da Justiça e Segurança Pública (MJSP).

O balanço traz uma conta que não fecha exatamente. As prisões em flagrante, 49.123, e as feitas com mandado judicial, 8.661, somam 57.784. São seis a menos que o total informado, por isso usamos só o total.

Segundo o SBT, a operação deve ser permanente. Nos 141 dias, mobilizou 123.878 policiais e 44.906 viaturas, em 4.253 municípios.

As lesões corporais lideram, com 16.644 prisões. Em seguida vem o descumprimento de medidas protetivas, com 4.949. Medidas protetivas são ordens judiciais que afastam o agressor da vítima.

Prisões pesam mais no Sul e no Centro-Oeste

A tabela compara a fatia de cada região nas prisões com a fatia de sua população no país. Se a polícia prendesse na proporção dos habitantes, as duas colunas seriam parecidas. Não são.

Sul e Centro-Oeste concentram mais prisões do que a população Participação de cada região nas prisões da operação e na população do país, em %

Região Prisões População
Sul 36% 14,7%
Centro-Oeste 26% 8,0%
Sudeste 18% 41,8%
Nordeste 15% 26,9%
Norte 4% 8,5%

Fonte: SBT News (balanço de 19/10/2026); IBGE, Censo 2022. Elaboração: redação.

O Sul tem 14,7% dos brasileiros e responde por 36% das prisões. Isso equivale a cerca de 2,4 vezes a sua fatia. O Centro-Oeste, com 8% da população, tem 26% das prisões, mais de três vezes a sua fatia.

O Sudeste, com 41,8% dos habitantes, aparece com 18% das prisões, menos da metade do seu peso. Nordeste e Norte também ficam abaixo de sua fatia populacional.

O que a conta não mostra

Prisão mede a ação da polícia, não a incidência da violência. Uma região pode ter mais prisões porque tem mais policiais nas ruas, mais mandados cumpridos ou mais registros de ocorrência.

Por isso, a tabela não diz onde a violência é maior. Uma coincidência entre prisões e violência não prova causa. A distribuição mostra onde a operação prendeu mais, não onde os crimes acontecem com mais frequência.

Os números de feminicídio ajudam a medir o problema. O Anuário Brasileiro de Segurança Pública, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), registrou 1.571 feminicídios em 2025, alta de cerca de 4% sobre 2024. O Monitoramento Nacional, do MJSP com o Ministério das Mulheres, aponta 741 casos de janeiro a junho de 2026, queda de 2,5% sobre o mesmo período de 2025. Os dois levantamentos medem períodos e métodos diferentes.

O que diz o Ministério da Justiça e Segurança Pública: segundo o SBT News, a operação é coordenada pelo MJSP com os estados e o DF, e deve ser permanente. A redação não localizou nota oficial com o balanço de 57.790 prisões.

O que isso significa

O balanço mostra escala e trabalho policial. Não mostra se a violência contra as mulheres caiu. Para saber isso, seria preciso comparar, por estado e por período, os casos registrados e os feminicídios, com o mesmo método.

Até lá, a leitura mais honesta é esta: a operação prende muito onde atua muito. Os números oficiais ainda não dizem se as mulheres estão mais seguras.

Como fizemos: Usamos o balanço da Operação Mulher Segura divulgado pelo SBT News em 19/10/2026 (prisões, efetivo e distribuição regional), o Monitoramento Nacional divulgado pela Agência Gov em 23/07/2026 e o Anuário do FBSP, acessados em 21/10/2026. A participação de cada região na população vem do Censo 2022 do IBGE, conforme divulgado pela Agência Brasil. As razões entre as duas participações (por exemplo, 36% dividido por 14,7%, cerca de 2,4) são nossas. Não conseguimos acessar a página do MJSP com o balanço nacional, e o total de 57.790 vem de uma única fonte jornalística. Os dados não mostram quantas mulheres sofreram violência nem medem a eficácia da operação.

Fontes