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Juros só cairão de vez quando as contas públicas convencerem

A Selic caiu para 13,75%, mas o juro real segue perto de 9% ao ano; sem confiança nas contas do governo, a queda dos juros terá fôlego curto.

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Ilustração provisória: composição geométrica abstrata de quartos de círculo escalonados em ouro e verde sobre fundo creme, sem pessoas.
Composição geométrica no estilo da arte concreta, imagem provisória a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Na quarta-feira (16), o Banco Central (BC) cortou a Selic, a taxa básica de juros do país, para 13,75% ao ano. Foi o quinto corte seguido. A inflação oficial acumulada em 12 meses está em 4,22%. Descontada essa inflação, numa conta simples, o juro real ainda fica perto de 9% ao ano.

É um número muito alto para um país que precisa crescer. A pergunta que importa não é por que o BC cortou. É por que, mesmo cortando, os juros continuam tão altos.

O peso da dívida

Minha resposta começa pela dívida pública. Em julho, a dívida bruta do governo geral chegou a 82,5% do Produto Interno Bruto (PIB), segundo o BC. É o maior nível desde abril de 2021, informou o SBT News. Em valores, são cerca de R$ 10,9 trilhões.

O custo dessa dívida é enorme. Nos 12 meses até julho, o setor público gastou R$ 1,15 trilhão com juros, ou 8,67% do PIB. No mesmo período, o déficit primário, que é o resultado das contas antes dos juros, ficou em R$ 89,3 bilhões. A conta de juros foi quase 13 vezes maior que o rombo primário.

Há ainda um círculo vicioso. Segundo o Tesouro Nacional, entre 49% e 53% da dívida pública federal deve terminar 2026 corrigida pela própria Selic. Juros altos aumentam a dívida, e dívida alta ajuda a manter os juros altos.

A dúvida fiscal tem preço

Quem empresta ao governo cobra pelo risco. Se o investidor duvida que as contas vão fechar no futuro, pede juros maiores hoje. A inflação esperada também sobe, e o BC precisa reagir.

O próprio Copom, o comitê do BC que define a Selic, deixou isso escrito no comunicado de quarta-feira. “O Comitê segue acompanhando como os desenvolvimentos da política fiscal doméstica impactam a política monetária e os ativos financeiros”, diz o texto. Segundo o BC, isso reforça “a postura de cautela”.

Por isso, acredito que nenhum presidente vai baixar os juros por discurso ou por pressão sobre o BC. O caminho é outro: metas fiscais críveis, cumpridas sem truques contábeis, e gastos que caibam na arrecadação. Quando o mercado acreditar na trajetória da dívida, o juro cai, e cai de forma duradoura.

Isso não exige cortes heroicos de um ano para o outro. Exige uma regra fiscal estável, respeitada por governos de qualquer partido. A previsibilidade vale mais do que qualquer promessa de campanha sobre a taxa de juros.

O que diz quem discorda: O presidente Lula (PT) disse a empresários, em 31 de agosto, que os juros altos não dependem só dele e citou a independência do BC, segundo relato da Folhapress. Ele defendeu o compromisso fiscal de seu governo com números de suas gestões e disse que não abrirá mão dos compromissos sociais.

A próxima reunião do Copom será em 3 e 4 de novembro, depois da eleição. Quem vencer em 25 de outubro terá de mostrar cedo seu plano para a dívida. Desse plano dependerá o ritmo dos próximos cortes, e o custo do crédito para famílias e empresas.

Fontes