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Voto tático: perder uma eleição para não perder a direita

Lula disse em Porto Alegre que 2026 é sua última disputa; a coluna defende o voto tático: derrotar Flávio agora para a direita chegar limpa a 2030.

Artigos de opinião expressam a visão de seus autores, identificados pelo nome, não necessariamente a da Revista Nação.

Sala de votação com urna eletrônica instalada durante o primeiro turno das eleições de 2026, em Brasília.
Seção eleitoral no Colégio do Sol, no Lago Norte, em Brasília, durante o primeiro turno das eleições de 2026, em 4 de outubro.Foto: Saulo Cruz / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Começo pelo fato mais incômodo desta campanha. Na segunda-feira (19), em Porto Alegre, Lula disse que esta é a sua última disputa eleitoral.

Ele tem 80 anos. Pode ser frase de palanque. Se for verdade, ela muda a conta que a direita faz no domingo (25).

Escrevo com todas as letras: defendo, nesta coluna, um voto em Lula no segundo turno. Não peço que ninguém goste dele. Não vou fingir que Lula é de direita — ele não é.

Votar nele é votar no PT, e é isso mesmo: um voto tático, o mal menor para a direita. A ideia é simples. Perder uma eleição para não perder a direita.

Quem acompanha esta revista sabe de onde escrevo. Sou da direita que defende a Lava Jato, a polícia e o agro. É por ser desta direita que me recuso a entregá-la a Flávio Bolsonaro.

O senador é investigado no Supremo Tribunal Federal (STF) no caso Dark Horse. O inquérito foi aberto em julho, a pedido da Polícia Federal (PF), por suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Segundo o Intercept, que revelou os áudios, Flávio pediu e cobrou do banqueiro Daniel Vorcaro US$ 24 milhões para um filme sobre o pai. Na véspera da prisão de Vorcaro, mandou-lhe um recado: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

Um governo Flávio passaria quatro anos explicando esse caso. Cada semana, uma revelação nova. Cada entrevista do ministro, uma pergunta sobre Vorcaro. A marca da direita ficaria amarrada à família Bolsonaro e a um inquérito no STF.

É o adversário que o PT sonha para 2030: um Bolsonaro com sobrenome conhecido e histórico às costas.

2030 já está aberto

E aqui volta a frase de Porto Alegre. Se esta é a última eleição de Lula, a direita tem uma chance que talvez não volte: perder agora e disputar 2030 com um nome limpo.

Não sou eu quem inventa a tese. O colunista Silvio Ribas, da Gazeta do Povo, argumenta que uma vitória de Lula pode tirar os Bolsonaro da corrida de 2030. Aliados de Tarsício, sem se identificar, veem a derrota de Flávio como a chance deles, segundo reportagem do PlatoBR.

A direita tinha outros nomes, como Tarsício e Caiado. O candidato foi escolhido pelo pai, de dentro da prisão. Isso é projeto de família, não projeto de direita.

Dirão que Flávio prometeu mandato único. A promessa depende de uma proposta de emenda à Constituição (PEC) parada no Senado, que precisa de três quintos das duas Casas. Um analista ouvido pela Gazeta do Povo chamou a medida de “principalmente simbólica”. Promessa não é lei.

Um freio chamado Congresso

Lula, se vencer, não governaria sozinho. O PL elegeu a maior bancada da Câmara dos Deputados: 121 deputados e 28 senadores, segundo a Agência Brasil. Seria o Congresso mais à direita da história recente.

Uma direita forte na oposição fiscaliza, bloqueia e se prepara para 2030. Uma direita no governo passa quatro anos defendendo Vorcaro.

Para quem escrevo? Não é para o bolsonarista convicto — ele não vai mudar de ideia, e eu respeito. Segundo a pesquisa Nexus/BTG, 41% dos eleitores de Cury e 30% dos de Renan Santos consideram votar em Lula. É para quem já está em dúvida que esta coluna existe.

Admito, com a mesma franqueza, o argumento mais forte contra a tese. Flávio lidera as pesquisas, a maior parte da direita está com ele, e derrotar o PT pesa mais que qualquer crítica para muita gente. Não vou fingir que essa convicção não existe. Ela existe, é legítima, e não será esta coluna que a derruba.

O que dizem os que fecharam com Flávio: No segundo turno, a maioria da liderança da direita o apoiou. Zema, que chegou a chamar o áudio com Vorcaro de “imperdoável”, declarou que “o inimigo é um só”. Caiado, que disse que os escândalos comprometiam a candidatura, também apoiou. Tarsício, Moro e Deltan defenderam Flávio no caso do áudio. Para essa ala, derrotar o PT justifica o apoio — posição legítima, dita com todas as letras.

No domingo (25), a direita escolhe o que ela é. Pode entregar a bandeira à família Bolsonaro e passar quatro anos explicando Vorcaro. Ou pode perder uma eleição, fazer oposição vigorosa a um presidente de 80 anos no último mandato e chegar a 2030 com o histórico limpo.

Perder uma eleição dói. Perder a direita custa muito mais.

Fontes