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Patrocínio sem registro: a PF vê lacuna 'severa' no dinheiro do filme

Mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil para o filme Dark Horse, mas só US$ 2,8 milhões têm registro de volta, segundo a PF, que pediu mais 90 dias.

Editoriais expressam a posição da Revista Nação, decidida pelo conselho editorial.

Fachada do prédio do Supremo Tribunal Federal, com colunas curvas de mármore branco e paredes de vidro, sob céu azul.
Fachada do Supremo Tribunal Federal (STF), onde corre o inquérito do caso Dark Horse, em Brasília, em 17 de fevereiro de 2025.Foto: Pedro França / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

A Polícia Federal (PF) usou uma palavra forte para descrever as contas do filme Dark Horse. Mais de US$ 12 milhões saíram do Brasil, mas só US$ 2,8 milhões aparecem registrados na volta. A divergência é “severa”, segundo a PF, em relato publicado pelo O Povo com a DW.

Em 16 de outubro, a corporação pediu mais 90 dias para concluir o inquérito, informou o ConJur. Até agora, não há decisão sobre o pedido. A menos de uma semana do segundo turno, o candidato da direita segue investigado num caso em que a polícia não consegue fechar a conta.

O caminho do dinheiro

O filme conta a história de Jair Bolsonaro. Segundo o Intercept, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Banco Master, prometeu US$ 24 milhões, cerca de R$ 134 milhões, para a produção. Ao menos US$ 10,6 milhões foram pagos entre fevereiro e maio de 2025, valor depois rastreado em US$ 12,3 milhões.

O destino foi a Havengate, um fundo no Texas administrado por Paulo Calixto, advogado de Eduardo Bolsonaro. Segundo o Intercept, o fundo estava parado. Fora registrado em 2020 para um projeto imobiliário que nunca obteve licenças. O primeiro pagamento ligado a Vorcaro, de US$ 2 milhões, chegou em 14 de fevereiro de 2025.

Patrocínio de cinema costuma deixar papel: contrato, cronograma, prestação de contas. Aqui, o que a PF encontrou foi um buraco entre o que saiu e o que voltou.

Para ter uma ideia da escala, os US$ 24 milhões prometidos equivalem a cerca de R$ 134 milhões. É dinheiro de grande produção. Num valor desse tamanho, cada dólar costuma ter recibo.

O que as checagens viram

Flávio Bolsonaro afirmou que os detalhes do contrato e do fundo já tinham sido mostrados. A agência Lupa classificou a afirmação como falsa. Ele também disse que não havia dinheiro da Lei Rouanet, o principal incentivo federal à cultura. A Lupa apontou falta de contexto: a produtora pediu R$ 8,59 milhões à Rouanet e teve o pedido negado.

Também está documentada a mensagem de Flávio a Vorcaro em 16 de novembro de 2025, véspera da prisão do banqueiro: “Irmão, estou e estarei contigo sempre”.

Dois meses antes, em 8 de setembro, Flávio havia cobrado do banqueiro pagamentos atrasados. A sequência importa. Quem cobra prazos e jura lealdade não é um espectador distante do negócio.

O estágio da investigação

O inquérito foi aberto no Supremo Tribunal Federal (STF) pelo ministro André Mendonça, em 22 de julho, segundo a Agência Brasil. O pedido veio da PF, com o aval da Procuradoria-Geral da República (PGR). Apura suspeitas de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. Eduardo Bolsonaro também é alvo.

Em setembro, Mendonça homologou a delação do doleiro Antônio Carlos Freixo Júnior, conhecido como Mineiro. Em 9 de outubro, a PF pediu ao Ministério da Justiça que buscasse ajuda dos Estados Unidos para rastrear o dinheiro, segundo a CNN Brasil.

Flávio é investigado, não réu. Esta revista não o trata como culpado. Mas também não aceita que se trate como encerrado um caso em que a própria polícia vê uma lacuna grave.

O que se espera de um candidato

Há quem diga que tudo isso é assunto para depois da eleição. Esta revista discorda. O eleitor vota uma vez, e não pode esperar 90 dias, ou mais, para saber em quem votou.

A Revista Nação defende o direito de qualquer investigado à presunção de inocência. Defende também o direito do eleitor à informação. As duas coisas cabem no mesmo parágrafo.

Se o dinheiro era privado e lícito, como Flávio sustenta, os papéis existem. Contratos, extratos e comprovantes de gastos esclareceriam a dúvida com rapidez. Mostrá-los antes do dia 25 seria o gesto de quem não tem nada a esconder.

A transparência, nesse caso, depende só de uma pessoa. Nenhum juiz precisa autorizar que um candidato mostre os próprios contratos.

A direita brasileira cresceu cobrando transparência de quem estava no poder. O mínimo é exigir o mesmo de quem quer chegar lá.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele afirma que o dinheiro de Vorcaro era privado e lícito e que ser senador não deu nenhuma vantagem ao banqueiro. Segundo a CNN Brasil, ele atribui a diferença nos valores a um contrato que não foi honrado.

Fontes