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Nabuco avisou em 1883 que abolir a escravidão era só o começo
Em “O Abolicionismo”, escrito em Londres, Joaquim Nabuco defendeu que a lei da liberdade teria de vir seguida de reformas para integrar os libertos.
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Em 8 de abril de 1883, em Londres, Joaquim Nabuco assinou o prefácio de “O Abolicionismo”. Tinha 33 anos e trabalhava como correspondente do Jornal do Commercio. Cinco anos depois, em 13 de maio de 1888, a Lei Áurea declarou extinta a escravidão no Brasil, em apenas dois artigos.
O livro, porém, não pedia só aquela lei. Seu argumento central é que a abolição seria o começo, e não o fim, de uma obra muito maior. É essa ideia que faz dele um clássico ainda incômodo.
A obra do presente e a do futuro
O primeiro capítulo tem um subtítulo que resume tudo: “A obra do presente e a do futuro”. Para Nabuco, libertar os escravos e seus filhos era “apenas a tarefa imediata do abolicionismo”. Haveria outra, maior: “apagar todos os efeitos de um regime” que durava três séculos.
O autor conhecia os limites das leis anteriores. Em 1850, o país proibira o tráfico de africanos. Em 1871, a Lei do Ventre Livre declarou livres os filhos de escravas nascidos dali em diante. Essa lei, escreveu Nabuco, respeitou o poder do senhor sobre o escravo e não ousou entrar nas fazendas.
Nabuco previa que, mesmo depois da última alforria, a escravidão continuaria a agir. Ela tinha moldado o trabalho, a terra, a política e o caráter do país. Por isso o livro fala em educação, associação, imprensa e “um novo ideal de Estado”. Sem essa segunda etapa, alertou, a obra da escravidão “irá por diante, mesmo quando não haja mais escravos”.
O que ficou por fazer
A Lei Áurea cumpriu a tarefa imediata, e só ela. Seu texto não previu escola, terra ou trabalho para os libertos. A segunda parte do programa de Nabuco não virou política de Estado naquele momento.
É aqui que o livro, 143 anos depois, ainda fala ao leitor. Ele ensina que uma lei justa pode ser necessária e insuficiente ao mesmo tempo. Acabar com uma injustiça no papel não desfaz, sozinho, os hábitos e as desigualdades que ela criou.
Nabuco não era um revolucionário. Queria a reforma pelo Parlamento e pela opinião pública, e não pela revolta. “A propaganda abolicionista, com efeito, não se dirige aos escravos”, escreveu. Essa escolha tem custos, como mostram seus críticos. Mas revela também a aposta de um reformista: mudar o país por dentro das instituições.
O que diz quem discorda: Historiadores do movimento abolicionista contestam a versão que põe o Parlamento no centro da história. Em “Flores, votos e balas” (2015), a socióloga Angela Alonso descreve uma campanha que ocupou teatros e ruas, organizou rotas de fuga e libertou ruas e bairros antes da lei. Em entrevista à revista Pesquisa FAPESP, ela afirma que o Estado foi apenas um dos vértices de um triângulo formado também pelo movimento e por seus adversários.
A crítica é justa e completa o retrato que Nabuco deixou de si mesmo. A abolição também foi obra de quem fugiu, resistiu e se mobilizou fora do Parlamento. Ainda assim, a pergunta central do livro resiste ao tempo. Ler “O Abolicionismo” hoje é lembrar que liberdade escrita em lei pede, depois, escola, trabalho e cidadania de verdade.


