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Contra o 6x1 no dia 6, a favor no dia 14

Flávio Bolsonaro mudou de posição sobre o fim da escala 6x1 em oito dias: era contra em 6 de outubro e votou sim no dia 14, desde que o Estado pagasse a conta.

Artigos de opinião expressam a visão de seus autores, identificados pelo nome, não necessariamente a da Revista Nação.

Plenário do Senado Federal, com senadores sentados nas bancadas de madeira e painel eletrônico ao fundo exibindo o resultado de uma votação.
Plenário do Senado Federal, em Brasília, durante sessão deliberativa de 29 de abril de 2026; o painel eletrônico exibe o resultado de uma votação.Foto: Waldemir Barreto / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

No dia 6 de outubro, o senador Flávio Bolsonaro era contra o fim da escala 6x1, a jornada de seis dias de trabalho e um de folga por semana. Defendia, no lugar, que o trabalhador escolhesse os próprios horários, por meio de uma Proposta de Emenda à Constituição (PEC) que assinou em maio, a PEC 12/2026. Oito dias depois, no dia 14, votou sim ao fim da 6x1, nos dois turnos, a distância. A proposta passou por 75 votos a 1, relata a Exame.

Essa discussão de mérito já foi feita, inclusive por esta revista. A mudança foi promulgada no dia 16 e garante duas folgas semanais sem corte de salário. A Revista Nação defendeu regras de transição para o pequeno empregador.

O que fica em aberto é outra coisa. Quanto vale a palavra de um candidato que troca de posição em oito dias, na reta final de uma eleição?

Uma semana, quatro respostas

O calendário está documentado. No dia 6, Flávio criticava a PEC 221/2019, que acabava com a 6x1, e defendia a escolha livre dos horários. Segundo o Intercept, a regra faria o pagamento virar proporcional às horas, o que abriria brecha para reduzir salários. No dia 7, disse que o fim da escala não adiantava num país endividado e desempregado, segundo o Metrópoles.

No dia 13, depois de visitar o pai, mudou de posição: votaria a favor, desde que o governo pagasse a conta dos empregadores, como registrou a CNN Brasil. No dia 14, o sim veio nos dois turnos.

E que fique dito com justiça, porque exatidão é compromisso desta casa: ele votou sim. Quem repetir que Flávio quer manter a 6x1 está desatualizado. O problema não é o voto do dia 14. É o dia 6 — e a naturalidade com que um “não” de campanha virou “sim” de Senado.

Um político tem um só patrimônio que não se herda nem se compra: a palavra. Quem defende o livre mercado, como eu, sabe que um contrato vale porque as partes são previsíveis. Um candidato que passa de “não” a “sim, se o Estado pagar” em oito dias não é previsível.

Nenhuma empresa assinaria um contrato com sócio desses. O eleitor assina em 25 de outubro.

Palavra é contrato

A defesa dele veio no debate da Band, no dia 18: mudou de ideia porque sabe ouvir. Ouvir é virtude, e eu aplaudo. Mas fica a pergunta: ouvir a quem?

A sequência documentada é que ele visitou o pai no dia 13 e mudou de posição no mesmo dia. Se foi convicção, que a explique em voz alta. Se foi palanque, que a confesse.

O eleitor de direita não se escandaliza com convicção. Escandaliza-se com versões.

E há a conta. A condição registrada pela CNN Brasil foi que “o governo deverá pagar a conta” dos empregadores. Traduzindo: um direito novo, cujo custo o Estado cobriria, sem que ninguém tenha dito com qual dinheiro.

Uma direita fiscalmente responsável não assina cheque em branco. “Quem paga o fim do 6x1?” é pergunta de direita, e a resposta documentada dele é: o governo.

A história, aliás, não parou no dia 14. No dia 16, Flávio prometeu não reverter o fim da 6x1, relata o Metrópoles. No mesmo dia, seu coordenador de campanha, Rogério Marinho, e o líder do PL, Sóstenes, seguiam defendendo o contrato por hora para 2027, segundo a mesma reportagem.

O capítulo de trabalho do plano de governo fala em horários flexíveis e no negociado prevalecendo sobre o legislado. Ou seja: o “não” do dia 6 não foi um deslize de agenda. É o programa.

Para medir o tamanho disso, vale lembrar do único voto contra: o general Hamilton Mourão, do mesmo campo, chamou a votação de “eleitoreira”, segundo o InfoMoney. Ele votou contra e disse por quê. Convicção se mede quando custa voto, não quando rende palco.

Em 25 de outubro, um eleitor de direita decide se empresta a bandeira a um candidato cujas posições têm prazo de validade semanal. Não peço que ninguém goste de Lula; esta coluna nunca pediu. Peço apenas uma pergunta: se Flávio mudou de lado em oito dias em plena campanha, o que não muda com o poder na mão?

Direita tem palavra. Palavra que muda sozinha não vira governo. Vira clima.

O que diz Flávio Bolsonaro: no debate da Band, em 18 de outubro, ele disse que mudou de ideia sobre o fim da 6x1 porque sabe ouvir. Ele lembra que votou a favor do fim da escala nos dois turnos, no dia 14, e que prometeu, no dia 16, não reverter a mudança se for eleito, segundo o Metrópoles.

Fontes