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Os evangélicos progressistas que fecharam com Lula contra Flávio

A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito apoiou a reeleição de Lula e ligou Flávio ao autoritarismo; a maioria da liderança evangélica segue com ele.

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O bispo Robson Rodovalho fala em um púlpito durante culto evangélico, ao lado do então presidente Jair Bolsonaro, em Brasília.
O bispo Robson Rodovalho, da Comunidade Sara Nossa Terra, fala na Celebração Profética em Brasília, ao lado do então presidente Jair Bolsonaro, em 7 de janeiro de 2022.Foto: Alan Santos / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Em agosto, um grupo de evangélicos progressistas tomou posição. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito declarou apoio à reeleição de Lula e associou a candidatura de Flávio Bolsonaro ao autoritarismo, segundo o Diario de Pernambuco. É uma minoria no mundo evangélico. Mas é um fato novo nesta campanha: uma ala organizada atravessou o campo e fechou com o adversário da família Bolsonaro.

Registro, com honestidade, o tamanho de cada lado. A maioria da liderança evangélica está mesmo com Flávio. O problema do candidato não é a hostilidade do púlpito. É que o próprio apoio chega ao segundo turno gasto, cheio de ressalvas e de silêncios — e com uma frente minoritária fazendo o caminho contrário.

O percurso de Malafaia

O pastor Silas Malafaia resume o desânimo da base. Chegou a dizer que a candidatura “não empolgou” e que preferia Tarsício e Michelle na chapa. Apoiou mesmo assim, em maio, durante um culto na própria igreja, a ADVEC, na Penha, no Rio.

Na ocasião, resumiu a posição numa frase: “eu sou amigo, não inimigo”. Em junho, depois do áudio com o banqueiro Vorcaro, afastou-se da campanha. Voltou em agosto — mas disse que apoia sem organizar atos de campanha. É apoio de letra miúda.

Outros líderes ficaram no meio do caminho. O bispo Rodovalho, da Sara Nossa Terra, avaliou após o áudio que os evangélicos dão a Flávio o “benefício da dúvida”. Não é um elogio: é uma nota de cautela, dita por quem já viu muitos candidatos passarem pelo templo. Dúvida, em campanha, é o pior estado em que um candidato pode deixar um aliado.

Já o caso da Igreja Universal é o retrato mais nítido da divisão. O Republicanos, partido ligado à igreja, confirmou o apoio a Flávio no dia 7. Na quarta (14), a direção comunicou aos pastores que a igreja é neutra no segundo turno. O partido apoia; o templo se recolhe.

O que a divisão diz

Os números confirmam o incômodo. O apoio evangélico a Flávio caiu de 61% para 52% entre maio e junho, na contagem da Quaest divulgada pela Agência Pública. Quando o templo entra na campanha, a igreja se divide: parte aplaude, parte se cala, e uma ala minoritária atravessa a linha e apoia Lula.

A Frente é pequena, mas não é irrelevante. Ela disputa a representação de uma parcela do rebanho que não se vê no palanque bolsonarista. E força a pergunta que esta eleição deixou no ar: quem fala em nome dos evangélicos?

A resposta ficou mais complicada. Uns pastores pedem voto em Flávio; outros recusam organizar atos; um grupo organizado pede voto em Lula. O bloco de voto que os partidos disputavam como um só revelou-se um rebanho com vontade própria.

Nenhum lado sai imaculado. A campanha de Flávio tratou o eleitorado evangélico como bloco cativo. A Frente trocou o púlpito pelo palanque adversário. Nos dois casos, a fé virou moeda de troca — e é o rebanho que paga a conta.

Para o segundo turno, a divisão tem consequência prática. O candidato do PL precisava do bloco evangélico inteiro, unido e engajado. Vai às urnas com parte dos líderes apoiando por dever, um templo neutro e uma ala do próprio mundo evangélico fechada contra ele. Numa disputa apertada como esta, cada pedaço que se solta pesa na conta final.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato se diz evangélico desde a juventude, criado pela mãe na fé e em colégio batista, e foi batizado quatro vezes — a última no rio Jordão, no início deste ano. Ele nega que pretenda tirar Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira e chama o rumor de mentira do PT. A Frente de Evangélicos pelo Estado de Direito mantém a própria avaliação: liga a candidatura dele ao autoritarismo e apoia a reeleição de Lula.

No domingo (25), o voto evangélico vai contar duas histórias. A do bloco que seguiu Flávio com reservas cada vez maiores. E a da minoria que preferiu atravessar o campo. As duas dizem a mesma coisa: fé não é curral eleitoral — e sobrenome nenhum compra o rebanho inteiro.

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