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Pastores dizem que Flávio 'não parece evangélico'

Pastores ouvidos pela Agência Pública citam festas de carnaval, vape e vocabulário; o apoio evangélico a Flávio caiu de 61% para 52% na Quaest.

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O missionário R. R. Soares fala em um púlpito durante cerimônia evangélica da Igreja Internacional da Graça de Deus, no Rio de Janeiro.
O missionário R. R. Soares na cerimônia dos 40 anos da Igreja Internacional da Graça de Deus, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 2020.Foto: Carolina Antunes / Palácio do Planalto / Wikimedia Commons (CC BY 2.0)

Flávio Bolsonaro foi batizado quatro vezes, segundo a Agência Pública. A primeira na juventude, na Tijuca. Depois em 2016, no rio Jordão, em viagem liderada pelo pastor Everaldo, e em 2024, com a esposa, em Brasília. A última foi no início deste ano, de novo no Jordão.

Ele se diz evangélico desde a juventude, criado pela mãe na fé e em colégio batista. Quatro batismos em pouco mais de uma década chamam atenção em qualquer templo.

Alguns pastores ouvidos pela Agência Pública dizem que ele “não parece evangélico”. Citam as festas de carnaval de que o senador teria participado, o vape e o vocabulário que ele usa.

Não cabe a esta coluna julgar a fé de ninguém. Ninguém pode provar o que se passa no coração de um homem, e não vou fingir que posso. O que está documentado é outra coisa: o uso político da fé nesta campanha e a crítica pública de líderes religiosos à conduta do candidato.

A fé como palanque

O vocabulário da campanha é religioso. Na Marcha para Jesus, em junho, e de novo no centenário da Assembleia de Deus de Madureira, no dia 10, Flávio chamou a situação do país de “guerra espiritual”. Em agosto, prometeu decretar que o Brasil é do Senhor Jesus Cristo. Um pastor ouvido pelo Estado de Minas chamou a promessa de inconstitucional e teologicamente equivocada.

O Tribunal Superior Eleitoral (TSE) já precisou intervir. Na sexta-feira (16), a ministra Estela Aranha mandou apagar em três horas o post “Lula não feche minha igreja”. Para a decisão, a publicação sugeria ameaça à liberdade religiosa sem base em fato. O checador especializado em conteúdo religioso, o Bereia, já havia classificado a alegação como falsa.

O atrito não para nos evangélicos. Flávio acusou pessoas de dentro da Conferência Nacional dos Bispos do Brasil (CNBB) de espalhar o rumor de que ele tiraria Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira. Ele nega a intenção e chama o rumor de mentira do PT.

A CNBB respondeu no mesmo dia: a acusação não tinha fatos nem evidências. Um bispo lembrou o histórico de ataques da família Bolsonaro à entidade.

A conta do palanque

Os números registram o desgaste. Entre maio e junho, o apoio evangélico a Flávio caiu de 61% para 52%, na contagem da Quaest divulgada pela Agência Pública. São nove pontos em duas ondas de pesquisa, no eleitorado que a campanha trata como propriedade.

Parte do eleitorado que enche os templos aos domingos já distingue fé de palanque. Alguns pastores veem nos batismos repetidos tanto devoção quanto cálculo político.

Há um padrão na campanha. Quando a disputa esquenta, o candidato apela ao vocabulário religioso. Quando a checagem chega, o post sai do ar por ordem do TSE. Quando a CNBB reage, a resposta é negar e chamar o rumor de mentira do PT.

A fé aparece como ferramenta de ataque, não como bússola de conduta. É exatamente o contrário do que o púlpito ensina.

Sou de uma geração que aprendeu na igreja que valores cristãos incluem a verdade. Usar o nome de Jesus para pedir voto é o que a direita cristã sempre condenou nos outros. Não vira certo quando quem faz carrega o sobrenome que aprovamos.

Fé não é palanque. Quando o púlpito vira comício, o rebanho se divide entre os que aplaudem e os que se envergonham.

O que diz Flávio Bolsonaro: O candidato se diz evangélico desde a juventude, criado pela mãe na fé e em colégio batista, e coleciona quatro batismos, o último no rio Jordão no início deste ano. Ele nega que pretenda tirar Nossa Senhora Aparecida do título de padroeira e chama o rumor de mentira do PT.

No domingo (25), o eleitor evangélico vai separar o que a campanha mistura. Pode votar em Flávio por convicção política — é direito dele. Mas a conta do palanque religioso já está na mesa: post apagado pelo TSE, desgaste com bispos, apoio em queda. A fé aguenta tudo, menos ser usada.

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