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Em 2022, Flávio defendia privatizar a Petrobras. Em 2026, não

Flávio Bolsonaro saiu da defesa da privatização da Petrobras, em 2022, para chamar o tema de 'boataria' em 2026; o plano mantém a privatização 'caso a caso'.

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Plataforma de petróleo em alto-mar, com estrutura metálica e torres sobre a água.
A plataforma P-51, da Petrobras, a primeira plataforma de petróleo construída integralmente no Brasil, em foto de 2009 divulgada pela estatal e distribuída pela Agência Brasil.Foto: Divulgação Petrobras / Agência Brasil / Wikimedia Commons (CC BY 3.0 BR)

Em 5 de abril de 2022, o senador Flávio Bolsonaro disse ao UOL que o pai, então presidente, havia liberado o estudo da privatização da Petrobras. Em 9 de outubro de 2026, candidato à Presidência, chamou a conversa sobre o assunto de “boataria” e acusou Lula de usar a estatal eleitoralmente, segundo o InfoMoney. Entre uma fala e outra, passaram quatro anos, um plano de governo e um silêncio.

Esta coluna não vai dizer que ele vai privatizar a Petrobras — ninguém sério pode dizer isso, e o fato de ele negar está documentado. Vou dizer algo mais desconfortável: ele defendeu a privatização antes e não descarta vender partes. Essa é a leitura que resiste ao registro. Para quem é de direita, o problema não é a privatização: é a palavra que se esvazia.

O arco documentado

Antes de seguir, os termos. Privatizar é transferir ao setor privado a propriedade de uma empresa estatal, como a Petrobras, a estatal de petróleo. “Vender partes” é o caminho do meio: abrir mão de ativos, unidades ou participações sem vender a companhia inteira. As frases de Flávio andaram entre um extremo e outro.

Em 22 de dezembro de 2025, em entrevista à Reuters, ele disse que a Petrobras é complexa demais. As partes que funcionam deveriam ficar; as que não funcionam poderiam ser privatizadas, relata o InfoMoney. Em fevereiro de 2026, disse que uma empresa de monopólio estratégico não pode ser simplesmente vendida, segundo o portal eixos. Em 13 de agosto, o plano de governo que ele registrou retomou o Programa Nacional de Privatização, “caso a caso”, sem citar a Petrobras, segundo o eixos.

Depois, o discurso foi afinando. Em 18 de agosto, o coordenador Rogério Marinho disse que a Petrobras é estratégica e que não há plano de privatizá-la, segundo a CNN Brasil. Ele não descartou, porém, a venda de ativos.

Em 8 de outubro, o também coordenador Adolfo Sachsida garantiu que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa “não serão tocadas”, segundo o InfoMoney. No dia seguinte, o candidato resolveu o assunto em uma palavra: “boataria”.

Há um detalhe nessa história que o leitor não deveria perder. O mesmo Sachsida que agora promete não tocar na Petrobras pediu, quando era ministro, em 2022, estudos de privatização da estatal, como notou a Forbes. A revista observou, também, que ele não disse se a promessa vale para as demais estatais. O “caso a caso” segue, portanto, com a lista aberta.

O liberal que virou o vento

A direita brasileira defendeu a privatização por décadas, e defende com razão econômica: monopólio estatal engessa a máquina e encarece o produto. Era essa a tese de 2022, assinada por Flávio. Em 2026, a tese virou “boataria” — não porque os argumentos tenham caído, mas porque o calendário mudou. É o que a sequência sugere: entre uma fala e outra não houve debate técnico novo — houve uma eleição.

O leitor atento já percebeu a sutileza. O plano não cita a Petrobras, e a negativa dele é só sobre ela. Mas a pergunta da coluna não é “vai ou não vai”.

É esta: ele defendeu estudar a privatização em 2022, flertou com vender partes em 2025 e mantém, no plano, um capítulo de privatização sem lista de empresas. Em que exatamente a conversa seria “boataria”?

No que está documentado, o assunto é real e segue aberto. O que é boato é a certeza — das duas direções. Quem afirma que ele vai privatizar a Petrobras inventa; quem afirma que o tema morreu ignora o próprio plano dele. A frase correta é a mais chata e a mais verdadeira: ele defendeu a privatização antes e não descarta vender partes.

Para a direita, o custo é em dobro. Primeiro: o candidato que diz defender o livre mercado recusa defendê-lo quando o tema esquenta, e quem não defende seus princípios em campanha raramente os defende no poder. Segundo: ele entrega à esquerda o enredo de que a direita esconde a agenda — e, desta vez, o capítulo de privatização do plano é público.

Em 25 de outubro, quem é de direita não escolhe só um nome. Escolhe qual palavra vale, porque vai cobrar essa palavra por quatro anos. A de Flávio sobre a Petrobras mudou de lado ao menos quatro vezes em quatro anos. Liberal em 2022, fala hoje como estatista em campanha — e a direita merece mais do que um candidato que trata as próprias ideias como boato alheio.

O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: o candidato chamou a conversa sobre privatizar a Petrobras de “boataria” e negou qualquer plano, acusando Lula de usar a estatal eleitoralmente, segundo o InfoMoney. O coordenador Adolfo Sachsida afirmou que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa “não serão tocadas”. O plano de governo registrado não cita a Petrobras no capítulo de privatização, segundo o portal eixos.

Fontes