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Em 2022, Flávio defendia privatizar a Petrobras. Em 2026, não
Flávio Bolsonaro saiu da defesa da privatização da Petrobras, em 2022, para chamar o tema de 'boataria' em 2026; o plano mantém a privatização 'caso a caso'.
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Em 5 de abril de 2022, o senador Flávio Bolsonaro disse ao UOL que o pai, então presidente, havia liberado o estudo da privatização da Petrobras. Em 9 de outubro de 2026, candidato à Presidência, chamou a conversa sobre o assunto de “boataria” e acusou Lula de usar a estatal eleitoralmente, segundo o InfoMoney. Entre uma fala e outra, passaram quatro anos, um plano de governo e um silêncio.
Esta coluna não vai dizer que ele vai privatizar a Petrobras — ninguém sério pode dizer isso, e o fato de ele negar está documentado. Vou dizer algo mais desconfortável: ele defendeu a privatização antes e não descarta vender partes. Essa é a leitura que resiste ao registro. Para quem é de direita, o problema não é a privatização: é a palavra que se esvazia.
O arco documentado
Antes de seguir, os termos. Privatizar é transferir ao setor privado a propriedade de uma empresa estatal, como a Petrobras, a estatal de petróleo. “Vender partes” é o caminho do meio: abrir mão de ativos, unidades ou participações sem vender a companhia inteira. As frases de Flávio andaram entre um extremo e outro.
Em 22 de dezembro de 2025, em entrevista à Reuters, ele disse que a Petrobras é complexa demais. As partes que funcionam deveriam ficar; as que não funcionam poderiam ser privatizadas, relata o InfoMoney. Em fevereiro de 2026, disse que uma empresa de monopólio estratégico não pode ser simplesmente vendida, segundo o portal eixos. Em 13 de agosto, o plano de governo que ele registrou retomou o Programa Nacional de Privatização, “caso a caso”, sem citar a Petrobras, segundo o eixos.
Depois, o discurso foi afinando. Em 18 de agosto, o coordenador Rogério Marinho disse que a Petrobras é estratégica e que não há plano de privatizá-la, segundo a CNN Brasil. Ele não descartou, porém, a venda de ativos.
Em 8 de outubro, o também coordenador Adolfo Sachsida garantiu que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa “não serão tocadas”, segundo o InfoMoney. No dia seguinte, o candidato resolveu o assunto em uma palavra: “boataria”.
Há um detalhe nessa história que o leitor não deveria perder. O mesmo Sachsida que agora promete não tocar na Petrobras pediu, quando era ministro, em 2022, estudos de privatização da estatal, como notou a Forbes. A revista observou, também, que ele não disse se a promessa vale para as demais estatais. O “caso a caso” segue, portanto, com a lista aberta.
O liberal que virou o vento
A direita brasileira defendeu a privatização por décadas, e defende com razão econômica: monopólio estatal engessa a máquina e encarece o produto. Era essa a tese de 2022, assinada por Flávio. Em 2026, a tese virou “boataria” — não porque os argumentos tenham caído, mas porque o calendário mudou. É o que a sequência sugere: entre uma fala e outra não houve debate técnico novo — houve uma eleição.
O leitor atento já percebeu a sutileza. O plano não cita a Petrobras, e a negativa dele é só sobre ela. Mas a pergunta da coluna não é “vai ou não vai”.
É esta: ele defendeu estudar a privatização em 2022, flertou com vender partes em 2025 e mantém, no plano, um capítulo de privatização sem lista de empresas. Em que exatamente a conversa seria “boataria”?
No que está documentado, o assunto é real e segue aberto. O que é boato é a certeza — das duas direções. Quem afirma que ele vai privatizar a Petrobras inventa; quem afirma que o tema morreu ignora o próprio plano dele. A frase correta é a mais chata e a mais verdadeira: ele defendeu a privatização antes e não descarta vender partes.
Para a direita, o custo é em dobro. Primeiro: o candidato que diz defender o livre mercado recusa defendê-lo quando o tema esquenta, e quem não defende seus princípios em campanha raramente os defende no poder. Segundo: ele entrega à esquerda o enredo de que a direita esconde a agenda — e, desta vez, o capítulo de privatização do plano é público.
Em 25 de outubro, quem é de direita não escolhe só um nome. Escolhe qual palavra vale, porque vai cobrar essa palavra por quatro anos. A de Flávio sobre a Petrobras mudou de lado ao menos quatro vezes em quatro anos. Liberal em 2022, fala hoje como estatista em campanha — e a direita merece mais do que um candidato que trata as próprias ideias como boato alheio.
O que diz a campanha de Flávio Bolsonaro: o candidato chamou a conversa sobre privatizar a Petrobras de “boataria” e negou qualquer plano, acusando Lula de usar a estatal eleitoralmente, segundo o InfoMoney. O coordenador Adolfo Sachsida afirmou que Petrobras, Banco do Brasil e Caixa “não serão tocadas”. O plano de governo registrado não cita a Petrobras no capítulo de privatização, segundo o portal eixos.
Fontes
- Flávio Bolsonaro, em vídeo ao UOL, sobre o estudo da privatização da Petrobras (2022) — UOL
- Flávio Bolsonaro defende governo enxuto e privatizações para modernizar o Estado — InfoMoney
- Sachsida diz que Flávio Bolsonaro não vai privatizar a Petrobras — eixos
- Plano de Flávio Bolsonaro abraça espólio petista, incluindo agenda do gás — eixos
- Marinho diz que Petrobras é estratégica e que não há plano de privatizá-la — CNN Brasil
- Campanha de Flávio nega privatizar estatais e promete fortalecer programas sociais — InfoMoney
- Petrobras, BB e Caixa serão privatizados? O que diz coordenador de Flávio Bolsonaro — Forbes
- Flávio Bolsonaro descarta privatização da Petrobras como ‘boataria’ — InfoMoney