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Queiroz pagava as contas do candidato da direita, e ele admitiu

Em agosto de 2020, Flávio Bolsonaro admitiu que Fabrício Queiroz pagava contas pessoais suas, como o plano de saúde; no debate, recusou abrir sigilos.

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O senador Flávio Bolsonaro, de terno, sentado à bancada do Plenário do Senado Federal, entre outros parlamentares, durante sessão em Brasília.
O senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ) à bancada do Plenário do Senado, em Brasília, em 1º de setembro de 2026.Foto: Carlos Moura / Agência Senado / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Em 5 de agosto de 2020, o senador Flávio Bolsonaro admitiu que Fabrício Queiroz, ex-assessor indicado por ele, pagava contas pessoais suas. Entre as contas, cerca de R$ 100 mil do plano de saúde da família. A explicação da época: aquele era dinheiro dele próprio, relatou o Congresso em Foco.

Não se trata de boato de campanha. Um mês antes, em junho de 2020, imagens obtidas pelo Ministério Público do Rio mostraram Queiroz pagando, em dinheiro vivo, os boletos da escola das filhas de Flávio, noticiou o Poder360. Queiroz foi preso em Atibaia, numa propriedade do então advogado do senador, Frederick Wassef. O título da reportagem que registrou a admissão guarda a ironia do episódio: admitir as contas pagas e criticar a Lava Jato, no mesmo dia.

O que era a rachadinha

O caso começou em dezembro de 2018, com um alerta do Coaf, o conselho que monitora movimentações financeiras: cerca de R$ 1,2 milhão em operações atípicas na conta de Queiroz entre 2016 e 2017. Segundo os procuradores do Rio, ele teria recebido R$ 2,06 milhões em 483 depósitos de 13 assessores indicados por Flávio, 69% deles em dinheiro, e sacado cerca de R$ 2,9 milhões em espécie. É esse tipo de desvio que se convencionou chamar de rachadinha: parte do salário de assessores retorna ao operador do gabinete.

Registros bancários mostraram, ainda, depósitos de Queiroz e da esposa dele somando R$ 89 mil em 27 cheques a Michelle Bolsonaro entre 2011 e 2016. Jair Bolsonaro disse que se tratava do reembolso de um empréstimo.

Denunciado, nunca julgado

Esta revista é rigorosa com o estágio jurídico dos fatos. Flávio foi denunciado, nunca julgado. Em outubro de 2020, o Ministério Público do Rio denunciou 17 pessoas, entre elas o senador e Queiroz, por peculato (desvio de dinheiro público), lavagem de dinheiro, apropriação indébita e organização criminosa.

O caso caiu por questões processuais, não por mérito. Em fevereiro de 2021, o Superior Tribunal de Justiça (STJ) anulou as quebras de sigilo bancário e fiscal, tidas como mal justificadas. Em novembro de 2021, o Supremo Tribunal Federal (STF) anulou quatro dos cinco relatórios do Coaf; o primeiro, dos R$ 1,2 milhão, continuou de pé. Em maio de 2022, a Justiça do Rio rejeitou a denúncia por se apoiar em provas anuladas, mas o relator anotou que a conduta descrita poderia constituir crimes. Em fevereiro de 2025, o ministro Gilmar Mendes rejeitou os últimos recursos do MP, e uma denúncia nova segue juridicamente possível.

Anulado não é inocentado. Nenhum tribunal afirmou que os fatos não aconteceram; afirmou que as provas não podiam ser usadas. A diferença entre as duas coisas é enorme, e um candidato à Presidência a conhece.

O sigilo que ele não abriu

Nós, que defendemos a Lava Jato, passamos anos exigindo sigilo aberto para todos. A regra era simples: quem não deve, mostra as contas. Pois no debate da Band, em 18 de outubro, o presidente Lula desafiou Flávio a abrir seus sigilos bancário e de telefone. Flávio recusou e respondeu com acusações sobre a família de Lula, relatou a ND+. Naquela noite, as buscas por “Flávio rachadinha” passaram de 50 mil, segundo o Poder360.

Em abril, o candidato prometera encarar o assunto de frente: disse que mais de 30 assessores tiveram sigilos abertos, sem transferências para ele, e chamou o caso de político. Prometeu, mas não mostrou nada.

O segundo turno é em 25 de outubro. A bandeira anticorrupção não é enfeite de palanque: é a condição para a direita existir como projeto. Quem tem contas a esclarecer com Fabrício Queiroz, e se recusa a esclarecê-las em rede nacional, não pode tomar emprestado esse nome limpo. Esta revista não pede ao leitor que goste de Lula. Pede algo mais simples: que não entregue a bandeira anticorrupção a quem declinou abrir os próprios sigilos.

O que diz Flávio Bolsonaro: Ele nega a existência de esquema e sustenta que Queiroz agia sozinho, que as provas foram obtidas ilegalmente e que é vítima de perseguição política. Em agosto de 2020, também afirmou que Queiroz recolhia salários de assessores para contratar trabalhadores informais, sem seu conhecimento.

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