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Lula perguntou se ele vai privatizar o SUS. Flávio não respondeu diretamente

Checadores já mostraram que Flávio nunca prometeu privatizar o SUS. Mas, quando Lula perguntou no debate, ele não disse um simples não. A ambiguidade pesa.

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Fachada de uma Unidade Básica de Saúde com placa do SUS, com pessoas em fila na calçada em frente à entrada.
Fila em frente à Unidade Básica de Saúde Central, integrante do SUS, em Viçosa (MG), em maio de 2021.Foto: Mateus S. Figueiredo / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

A pergunta foi direta. No debate da Band, no domingo (18), Lula quis saber se o SUS “padrão Einstein” prometido por Flávio Bolsonaro significava privatizar o sistema. Segundo a CNN Brasil, Flávio não negou de forma direta.

O Sistema Único de Saúde (SUS) atende de graça qualquer pessoa no país. Para a maioria dos brasileiros, é o único acesso a médico, vacina e remédio. Uma pergunta sobre o futuro dele merecia uma resposta de uma palavra.

O que se sabe e o que é mentira

Comecemos pelo que não é verdade. Em abril, o Aos Fatos e a Lupa checaram uma frase que circulava nas redes, segundo a qual Flávio teria prometido privatizar o SUS. As duas agências concluíram que ele não disse isso e classificaram a frase como falsa.

A Lupa acrescentou um ponto importante. Privatizar o SUS por inteiro violaria o artigo 196 da Constituição. A participação privada de forma complementar, porém, é permitida.

Portanto, quem diz que Flávio vai vender o SUS está errado. Mas a pergunta de Lula não era sobre uma venda. Era sobre o rumo.

Nenhum documento da campanha fala em cobrar pelo atendimento no SUS. Quem espalha essa versão perde a razão. E dá ao candidato a chance de se apresentar como vítima de mentiras.

O rumo documentado

O plano de governo prevê mais parcerias com o setor privado e com as organizações sociais, as OSs, entidades privadas sem fins lucrativos contratadas para gerir unidades públicas. Segundo a Agência Brasil, elas seriam usadas em hospitais e procedimentos complexos.

O futuro ministro já foi escolhido. Claudio Lottenberg, ex-presidente do Hospital Albert Einstein, defende gestão privada na saúde pública, segundo a Itatiaia. E a equipe econômica estudou corrigir o piso da saúde apenas pela inflação, segundo a Folha de S.Paulo. A campanha nega que essa seja sua posição oficial.

O próprio Flávio reconheceu, no mesmo debate, que a saúde não foi o ponto forte do governo do pai. A franqueza é rara e merece registro. Mas ela torna a pergunta de Lula ainda mais pertinente: se o diagnóstico é de falha, qual é exatamente o remédio?

Nada disso é privatização no sentido estrito. Mas tudo aponta para mais gestão privada dentro do sistema público. A Central Única dos Trabalhadores (CUT), ligada ao PT, afirma que a contratação privada pode tomar o lugar da expansão pública.

A estratégia da ambiguidade

Por que Flávio não disse simplesmente “não”? Minha leitura é que um não categórico o amarraria. Um candidato que quer ampliar a gestão privada não quer prometer, ao vivo, limites que depois atrapalhem.

O padrão não é novo. Na Petrobras, a campanha nega planos de privatização, mas o coordenador Rogério Marinho disse que a venda de ativos não está descartada, segundo a CNN Brasil. Nega-se o rótulo e preserva-se a margem.

Sou de direita e não vejo o setor privado como inimigo. Parcerias bem feitas podem funcionar. Mas quem acredita nelas deveria defendê-las com clareza e dizer até onde pretende ir. Esconder a intenção atrás da ambiguidade é admitir que ela não seria bem recebida.

O silêncio, aliás, combina com o resto do plano. O texto fala em parcerias, em gestão privada e em prontuário eletrônico. Mas não traz valores de investimento, como aponta a CUT. Sem números, não há como medir a promessa.

A ambiguidade também tem custo para o próprio campo. Quando o candidato da direita não consegue dizer que o SUS continua público, entrega o tema inteiro ao adversário. E transforma uma checagem favorável a ele numa dúvida legítima contra ele.

O que o eleitor pode cobrar

A pergunta continua aberta, e ainda há tempo para respondê-la. Até o dia 25, Flávio pode dizer com todas as letras qual é o limite da participação privada no SUS. Pode também pôr no papel que o piso da saúde fica como está.

Se não fizer isso, o eleitor terá o direito de ler a falta de um não direto como resposta. Na saúde, como em tudo, quem não quer se comprometer costuma ter um motivo.

O que diz Flávio Bolsonaro: ele defende um SUS “padrão Einstein”, com mais participação do setor privado para melhorar o atendimento. A campanha nega que vá congelar o piso da saúde e diz que o estudo revelado pela Folha não faz parte do plano de governo.

Fontes