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Voto comprado e prazo: o que Flávio escrevia sobre programas sociais

Nos posts apagados, Flávio ligava o Bolsa Família a voto comprado e pedia prazo para um programa do Rio. Agora, sua equipe quer prazo no Bolsa Família.

Artigos de opinião expressam a visão de seus autores, identificados pelo nome, não necessariamente a da Revista Nação.

Fachada neoclássica do Palácio Tiradentes, no centro do Rio de Janeiro, com a estátua de Tiradentes em frente à escadaria.
O Palácio Tiradentes, então sede da Assembleia Legislativa do Rio de Janeiro (Alerj), onde Flávio era deputado estadual, em julho de 2010.Foto: Halley Pacheco de Oliveira / Wikimedia Commons (CC BY-SA 3.0)

Entre 2010 e 2013, quando era deputado estadual no Rio, Flávio Bolsonaro escrevia sem rodeios sobre programas sociais. Segundo o ICL Notícias, veículo de esquerda, ele ligava o Bolsa Família à compra de votos. Também propunha um prazo de dois anos para um programa social do estado.

Essas publicações foram apagadas. As ideias, não. Na segunda-feira (19), a coordenadora do programa de governo, Daniella Marques, anunciou uma regra que parece saída daqueles posts.

O prazo de dois anos voltou

Segundo o Metrópoles e o Correio Braziliense, Daniella disse que os beneficiários do Bolsa Família terão dois anos de transição. Nesse período, devem arrumar emprego ou abrir um negócio. Depois, saem do programa, com volta automática se a tentativa der errado.

A semelhança com o prazo que Flávio defendia há mais de uma década salta aos olhos. Aliados criticaram o momento do anúncio, a seis dias do segundo turno. Mas ninguém corrigiu o conteúdo.

Há um detalhe que pouca gente lembrou. A regra atual já prevê uma transição: quem melhora de renda continua recebendo 50% do benefício por até 18 meses. Ou seja, a proposta não inventa a porta de saída. Ela troca uma saída gradual por um prazo.

O que um conservador deveria pensar

Sou conservador e acredito no trabalho como caminho para a dignidade. Não vejo problema em discutir portas de saída. Programa social bom é aquele de que a família um dia deixa de precisar.

O problema está em duas coisas. A primeira é a premissa dos posts antigos.

Tratar o Bolsa Família como compra de votos é tratar milhões de beneficiários pobres como suspeitos. Isso não é visão de direita. É desprezo por quem acorda cedo para buscar trabalho e ainda assim precisa de ajuda para pôr comida na mesa.

Também é desprezo pela própria democracia. O voto do pobre vale tanto quanto o do rico, e quem o recebe de um programa social não deixa de ser cidadão. A direita que defende o indivíduo deveria ser a primeira a dizer isso.

A segunda é a incoerência. Em 8 de outubro, Flávio prometeu manter e ampliar o Bolsa Família, segundo O Tempo. Onze dias depois, sua coordenadora fala em prazo de saída. Qual das duas versões vale para quem depende do benefício?

O resto do cardápio

A dúvida cresce quando se olha o restante das discussões. A Folha de S.Paulo revelou que a equipe econômica estudou corrigir as aposentadorias do INSS e o BPC só pela inflação, num corte de cerca de R$ 250 bilhões. O BPC é o benefício pago a idosos e pessoas com deficiência de baixa renda. A campanha nega que essa seja sua posição oficial, e o candidato rejeitou a ideia diante das câmeras.

Segundo a BBC, cerca de 70% dos beneficiários do INSS recebem um salário mínimo. Corrigir o benefício desse grupo só pela inflação atinge justamente quem tem menos.

É preciso registrar também o que é mentira. Não é verdade que Flávio vá acabar com o BPC ou com o 13º salário, nem que vá fixar a aposentadoria aos 75 anos. A checagem do TMC classificou essas postagens como falsas. Quem as espalha enfraquece a crítica que tem base.

Há ainda o histórico de votos. Em 2019, Flávio votou a favor da reforma da Previdência, aprovada no Senado por 60 a 19, segundo a Agência Senado. É um voto que muitos liberais, eu inclusive, defenderiam. Mas mostra que ele não tem receio de mexer em benefícios quando acha necessário.

O retrato que fica é o de um candidato com duas vozes. Uma, pública, promete ampliar. Outra, nos bastidores e no arquivo apagado, fala em prazo, em corte e em voto comprado.

O eleitor de direita pode querer um Estado mais enxuto e, ainda assim, exigir clareza. Antes do dia 25, Flávio deve dizer qual das vozes governaria. Quem apaga o passado e deixa o presente para a coordenadora explicar está pedindo um cheque em branco.

O que diz Flávio Bolsonaro: o candidato afirma que vai manter e ampliar o Bolsa Família e nega qualquer corte em aposentadorias, que chama de “fake news”. Segundo a coordenadora Daniella Marques, a transição de dois anos serve para o beneficiário encontrar trabalho ou abrir um negócio, com retorno automático ao programa se não der certo.

Fontes