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Sérgio Buarque mostrou que o homem cordial confunde casa e Estado

Lançado em 1936, “Raízes do Brasil” explica que cordial vem de coração, e não de gentileza, e por que isso dificulta separar o público do privado.

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Ilustração provisória: composição geométrica abstrata de quartos de círculo encaixados em verde-oliva, ouro e tinta escura sobre fundo creme, sem pessoas.
Composição geométrica no estilo da arte concreta, imagem provisória a ser substituída antes do lançamento.Ilustração: Imagem provisória

Em outubro de 1936, a Livraria José Olympio lançou no Rio de Janeiro o primeiro volume da coleção Documentos Brasileiros, dirigida por Gilberto Freyre. Era “Raízes do Brasil”, de Sérgio Buarque de Holanda, então com 34 anos. Um dos capítulos virou parte do vocabulário nacional: “O homem cordial”.

A expressão não é do autor. Sérgio Buarque a tomou do escritor Ribeiro Couto, para quem o Brasil daria ao mundo o “homem cordial”. O leitor apressado entende gentileza, simpatia e bom humor. O livro quer dizer quase o contrário.

Cordial vem de coração

“Cordial” vem do latim “cor”, que significa coração. O homem cordial age pela emoção e pela intimidade, para o bem e para o mal. Em edições posteriores, depois de uma polêmica com o poeta Cassiano Ricardo, o autor deixou isso explícito. A inimizade, escreveu, pode ser tão cordial quanto a amizade, porque as duas nascem do coração.

O oposto da cordialidade é a polidez, a civilidade das regras e dos rituais impessoais. Para Sérgio Buarque, nossa forma comum de convívio é, no fundo, o contrário dela. O brasileiro cordial busca intimidade em tudo e trata até os santos com familiaridade.

O capítulo abre com a tragédia grega de Antígona e Creonte, em que a lei da cidade enfrenta o laço de sangue. A tese é que o Estado não é uma ampliação da família. Ele nasce de uma ruptura com ela, e essa ruptura nunca se completou por aqui.

O público tratado como coisa de casa

Daí vem a dificuldade que o livro descreve. Quem governa tende a escolher auxiliares pela confiança pessoal, e não pela competência. O cargo vira extensão da casa, e o favor ocupa o lugar da regra.

A Constituição de 1988 tentou responder a esse hábito. O artigo 37 manda a administração obedecer à impessoalidade e exige concurso público para cargos efetivos. Em 2008, o Supremo Tribunal Federal (STF) aprovou a Súmula Vinculante 13. Ela proíbe nomear cônjuges e parentes até o terceiro grau para cargos de confiança, nos três Poderes.

As regras existem. O que “Raízes do Brasil” ajuda a entender é por que elas precisam ser tão explícitas. Onde a cultura empurra para o favor, a lei impessoal tem de ser clara, conhecida e cobrada.

O que diz quem discorda: O sociólogo Jessé Souza é o crítico mais duro do conceito. Em “A tolice da inteligência brasileira” (2015), segundo resenha de Alexandre de Freitas Barbosa, ele trata o homem cordial como um mito construído sobre uma herança portuguesa idealizada. Para Jessé, essa leitura culpa a cultura do povo e um Estado corrupto pelos males do país e esconde o peso da elite econômica.

A crítica é forte e merece leitura atenta. Mas o próprio Sérgio Buarque não via a cordialidade como destino. No capítulo final, apostava que a urbanização dissolveria aos poucos o velho mundo rural e personalista. Noventa anos depois, a lição continua de pé: instituições impessoais não brotam sozinhas, são construídas contra o hábito.

Fontes