A voz da revista

Por

posição da revista

4 min de leitura

Todos os textos

OpiniãoEditoriais

A direita que gritava 'abre o sigilo' tem candidato que não abre

Lula pediu ao TSE a quebra dos próprios sigilos se Flávio fizer o mesmo; a campanha recusou. E um novo inquérito da PF no STF o investiga.

Publicado em

Editoriais expressam a posição da Revista Nação, decidida pelo conselho editorial.

Fachada curva de vidro escuro da sede do Tribunal Superior Eleitoral, com duas cúpulas brancas à frente e céu com nuvens.
Sede do Tribunal Superior Eleitoral (TSE), em Brasília, em março de 2012.Foto: Alexandresena / Wikimedia Commons (CC BY-SA 4.0)

Na terça-feira (20), o presidente Lula pediu ao Tribunal Superior Eleitoral (TSE) autorização para quebrar os próprios sigilos bancário, fiscal e telefônico dos últimos oito anos. O pedido inclui também os de Janja, dos cinco filhos dele e da empresa L.I.L.S. Palestras.

A condição é que Flávio Bolsonaro (PL) faça o mesmo com os próprios sigilos. Ela vale também para os de Jair, Rogéria, Carlos, Eduardo, Jair Renan e Fernanda. Alcança ainda empresas como Bolsonaro Digital, Bravo Grafeno e Alcazar Holdings, uma offshore registrada na Madeira, em Portugal.

Sigilo bancário protege as contas. O fiscal protege as declarações de imposto, e o telefônico, os registros de ligações. Em regra, quebrar esses sigilos exige ordem judicial. Por isso o caminho é o tribunal, e não uma declaração na imprensa.

O caso foi sorteado para o ministro André Mendonça. Protocolar o pedido, por si só, não abre nenhum registro. Só uma decisão do tribunal faria isso.

O tema não é novo. No debate da Band, em 18 de outubro, Lula desafiou Flávio a abrir os registros bancários e telefônicos dele. Flávio recusou e respondeu com acusações contra a família de Lula. Ele também tem um caso antigo: foi denunciado em 2020 no caso da rachadinha, em que o Ministério Público do Rio o acusou de desviar parte dos salários de assessores, e nunca foi julgado. As provas foram anuladas por motivos processuais, e não pelo mérito. Anulado não é inocentado.

O pedido de Lula e a resposta da campanha

Segundo o Correio Braziliense, a campanha de Flávio rejeitou a proposta. A reportagem ouviu interlocutores que não se identificaram. Um deles disse: “Lula pode tentar outra estratégia, porque essa não vai colar”.

A mesma reportagem diz que aliados pediram a Lula que divulgue os gastos do governo com cartões corporativos. Não encontramos declaração do próprio Flávio sobre o pedido de Lula.

Um inquérito da PF no STF

Também na terça-feira (20), um novo inquérito da Polícia Federal (PF) sobre Flávio foi sorteado ao ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF). O caso chegou ao STF porque Flávio é senador, segundo o Jornal de Brasília.

A reportagem diz que a PF apura suspeita de lavagem de dinheiro por meio de empresas de apostas. O caso envolve o advogado Willer Tomaz, amigo de Flávio. Segundo o jornal, os investigadores encontraram um e-mail de 2025 em que um funcionário de Tomaz pede a retirada do nome de Flávio de uma conta no exterior. Acharam também registros de viagens da família pagas por empresas do advogado. Segundo a CNN Brasil, uma conta bancária de Tomaz movimentou R$ 130 milhões entre março e maio de 2025, em “aparente incompatibilidade com as atividades econômicas conhecidas”.

Tomaz afirma que “inexiste qualquer movimentação financeira irregular”. Flávio é investigado, não indiciado, denunciado ou réu. Abrir o inquérito não impede a candidatura nem uma eventual posse.

A abertura de inquérito não é condenação, e a PF não concluiu o caso. Mas o dado é concreto: na conta do amigo do candidato, a própria polícia aponta uma movimentação que não bate com a atividade econômica conhecida. O eleitor precisa saber disso antes de 25 de outubro.

O que diz Flávio Bolsonaro: a defesa dele “rejeita qualquer irregularidade” no caso Tomaz e diz que “não houve compartilhamento de contas ou benefícios ilícitos”, segundo a CNN Brasil. Sobre o caso Dark Horse, ele afirma que o dinheiro era privado e lícito, e a assessoria negou qualquer conta conjunta.

O que isso significa

A direita que gritava “abre o sigilo” agora tem um candidato que não abre. Nós, que defendemos a Lava Jato e a transparência com o dinheiro público, pedimos a mesma régua para os dois lados. Quem cobra sigilo aberto do adversário precisa aceitar que a cobrança volte para si.

Lula fez um pedido ao tribunal, e isso é um gesto. Mas um pedido condicionado não abre nenhum sigilo, e não dizemos que as contas do presidente estão limpas. O ponto é outro: só um dos dois lados assinou o pedido de quebra.

Flávio já é investigado no STF pelo caso Dark Horse. Segundo a Agência Brasil, o ministro André Mendonça o incluiu como investigado, a pedido da PF, em inquérito sobre suspeita de lavagem de dinheiro, evasão de divisas e corrupção. O inquérito apura o dinheiro que Flávio buscou com o banqueiro Daniel Vorcaro para um filme sobre o pai. Ele é investigado, não réu.

A resposta mais simples aos dois casos é a que Flávio recusa: abrir os próprios sigilos e deixar que o tribunal veja. Ninguém precisa escolher entre Lula e Flávio para exigir isso. A eleição não decide se Flávio é culpado, porque essa cabe à Justiça. Ela decide se a direita terá um candidato que aceita a mesma regra que pede aos outros.

Como fizemos: Usamos reportagens de 20 de outubro de 2026 da Correio Braziliense, da Conjur, do Jornal de Brasília e da CNN Brasil, conferidas em 21 de outubro, além do dossiê de pesquisa da redação, de 19 de outubro. Não fizemos cálculos próprios. A versão da campanha sobre o pedido vem de interlocutores que não quiseram se identificar, e não encontramos declaração de Flávio sobre o tema.

Fontes