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Bobbio separa direita e esquerda pela igualdade, com limites

Em 1994, Norberto Bobbio pôs a igualdade no centro da distinção entre direita e esquerda; mais de três décadas depois, o critério ainda serve, com limites.

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Artigos de opinião expressam a visão de seus autores, identificados pelo nome, não necessariamente a da Revista Nação.

Prédio curvo de vidro e metal da Biblioteca Norberto Bobbio, com estudantes sentados no gramado em frente à entrada.
A Biblioteca Norberto Bobbio, da Universidade de Turim, na Itália, em abril de 2024.Foto: Evamiraglia97 / Wikimedia Commons (CC0)

Na semana do segundo turno, o país discute quem representa a direita e quem representa a esquerda. Um livro de 1994 oferece um critério para essa pergunta, e ele continua sendo citado. Seu autor, o filósofo italiano Norberto Bobbio, morreu aos 94 anos.

O livro se chama Destra e sinistra na Itália, onde saiu em 1994. No Brasil, a Editora Unesp o publicou em 1995, com o título Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política.

O crítico britânico Perry Anderson observa que o livro saiu durante a campanha eleitoral italiana de 1994. Cinco anos antes, o Muro de Berlim tinha caído, segundo a colunista Nadia Urbinati. Depois do colapso do comunismo, muitos pensadores de esquerda passaram a falar em superar a distinção, lembra Anderson.

O critério: a atitude diante da igualdade

Para Bobbio, direita e esquerda se separam pela atitude diante da igualdade. A esquerda parte da ideia de que os seres humanos são iguais e quer remover desigualdades criadas pela sociedade. A direita aceita as desigualdades como naturais ou inevitáveis.

Bobbio usa outro eixo para separar moderados de extremistas dentro de cada lado: a liberdade. Uma resenha da Univates descreve essa leitura, mas não conseguimos ler a passagem no original.

Um critério com fissuras

Bobbio respondeu aos críticos num texto escrito em Turim, em outubro de 1994, incluído na edição brasileira de 1995. Ele escreveu: “Nenhuma pessoa de esquerda (sinistrorso) pode deixar de admitir que a esquerda de hoje não é mais a de ontem.”

Perry Anderson, em resenha de 1998 na New Left Review, acha que Bobbio junta ideias que podem ser separadas. É possível achar que os seres humanos são naturalmente mais iguais que desiguais e, ao mesmo tempo, que a maior parte das desigualdades não pode ser eliminada. O inverso também é possível.

O critério ainda serve como teste de propostas. Quando um programa aposta em redistribuição, em serviços públicos universais e em regras para igualar pontos de partida, ele se encaixa no critério de Bobbio. Quando aceita a desigualdade como resultado natural do mercado, também se explica pelo mesmo critério.

A distinção não explica tudo. Ela não resolve sozinha pautas de costumes, segurança ou religião, que cruzam os dois campos. Nesses temas, a pergunta sobre igualdade não basta.

O que diz a editora: a Editora Unesp descreve o livro assim: “Andando na contramão das tendências contemporâneas nas Ciências Políticas, Bobbio demonstra, neste livro, a atualidade da distinção entre esquerda e direita.” Segundo a página do catálogo, a edição citada é a 2ª, de 2003, com 190 páginas.

O que isso significa

Bobbio não diz quem é de direita ou de esquerda de verdade. O livro dá um critério para comparar, não um veredito sobre pessoas.

Lido em outubro de 2026, ele serve para perguntar o que cada proposta faz com a desigualdade. Essa pergunta vale para qualquer lado, e o eleitor pode fazê-la sem escolher uma torcida.

Como fizemos: Lemos a sinopse e os dados da edição no catálogo da Editora Unesp (ISBN 9788571393561), o texto da Tribuna do Paraná que cita a edição brasileira de 1995 e a resposta de Bobbio, a resenha de Perry Anderson na New Left Review (1998) e a coluna de Nadia Urbinati no Domani (2023), acessados em 21/10/2026. Não lemos o livro: as citações de Bobbio vêm de textos que o reproduzem, e a descrição da liberdade como eixo vem de uma resenha da Univates que não conseguimos ler por inteiro, apenas em trechos de busca.

Fontes