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Bobbio separa direita e esquerda pela igualdade, com limites
Em 1994, Norberto Bobbio pôs a igualdade no centro da distinção entre direita e esquerda; mais de três décadas depois, o critério ainda serve, com limites.
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Na semana do segundo turno, o país discute quem representa a direita e quem representa a esquerda. Um livro de 1994 oferece um critério para essa pergunta, e ele continua sendo citado. Seu autor, o filósofo italiano Norberto Bobbio, morreu aos 94 anos.
O livro se chama Destra e sinistra na Itália, onde saiu em 1994. No Brasil, a Editora Unesp o publicou em 1995, com o título Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política.
O crítico britânico Perry Anderson observa que o livro saiu durante a campanha eleitoral italiana de 1994. Cinco anos antes, o Muro de Berlim tinha caído, segundo a colunista Nadia Urbinati. Depois do colapso do comunismo, muitos pensadores de esquerda passaram a falar em superar a distinção, lembra Anderson.
O critério: a atitude diante da igualdade
Para Bobbio, direita e esquerda se separam pela atitude diante da igualdade. A esquerda parte da ideia de que os seres humanos são iguais e quer remover desigualdades criadas pela sociedade. A direita aceita as desigualdades como naturais ou inevitáveis.
Bobbio usa outro eixo para separar moderados de extremistas dentro de cada lado: a liberdade. Uma resenha da Univates descreve essa leitura, mas não conseguimos ler a passagem no original.
Um critério com fissuras
Bobbio respondeu aos críticos num texto escrito em Turim, em outubro de 1994, incluído na edição brasileira de 1995. Ele escreveu: “Nenhuma pessoa de esquerda (sinistrorso) pode deixar de admitir que a esquerda de hoje não é mais a de ontem.”
Perry Anderson, em resenha de 1998 na New Left Review, acha que Bobbio junta ideias que podem ser separadas. É possível achar que os seres humanos são naturalmente mais iguais que desiguais e, ao mesmo tempo, que a maior parte das desigualdades não pode ser eliminada. O inverso também é possível.
O critério ainda serve como teste de propostas. Quando um programa aposta em redistribuição, em serviços públicos universais e em regras para igualar pontos de partida, ele se encaixa no critério de Bobbio. Quando aceita a desigualdade como resultado natural do mercado, também se explica pelo mesmo critério.
A distinção não explica tudo. Ela não resolve sozinha pautas de costumes, segurança ou religião, que cruzam os dois campos. Nesses temas, a pergunta sobre igualdade não basta.
O que diz a editora: a Editora Unesp descreve o livro assim: “Andando na contramão das tendências contemporâneas nas Ciências Políticas, Bobbio demonstra, neste livro, a atualidade da distinção entre esquerda e direita.” Segundo a página do catálogo, a edição citada é a 2ª, de 2003, com 190 páginas.
O que isso significa
Bobbio não diz quem é de direita ou de esquerda de verdade. O livro dá um critério para comparar, não um veredito sobre pessoas.
Lido em outubro de 2026, ele serve para perguntar o que cada proposta faz com a desigualdade. Essa pergunta vale para qualquer lado, e o eleitor pode fazê-la sem escolher uma torcida.
Como fizemos: Lemos a sinopse e os dados da edição no catálogo da Editora Unesp (ISBN 9788571393561), o texto da Tribuna do Paraná que cita a edição brasileira de 1995 e a resposta de Bobbio, a resenha de Perry Anderson na New Left Review (1998) e a coluna de Nadia Urbinati no Domani (2023), acessados em 21/10/2026. Não lemos o livro: as citações de Bobbio vêm de textos que o reproduzem, e a descrição da liberdade como eixo vem de uma resenha da Univates que não conseguimos ler por inteiro, apenas em trechos de busca.
Fontes
- Direita e esquerda: razões e significados de uma distinção política — Editora Unesp
- Filósofo italiano Norberto Bobbio morre aos 94 anos — Tribuna do Paraná
- A Sense of the Left — Perry Anderson, New Left Review I/231 (1998)
- L’uguaglianza è la stella polare, Norberto Bobbio lo aveva capito — Nadia Urbinati, Domani (2023)
- Resenha de Direita e esquerda de Norberto Bobbio — Univates

